“O mundo é um deserto; o cristão é um estranho; o céu é o seu lar.”
John Nelson Darby


Num quarto escuro, sentado em uma cadeira de praia à luz de uma luminária, foi onde encontrei as maiores riquezas espirituais que revelam o Criador. Não havia decoração bonita, nem ambiente climatizado. Não havia lente de câmera voltada para mim, a fim de que eu vendesse nas redes sociais a imagem de um estudioso ou intelectual. Era só eu e a Bíblia. Eu precisava encará-la.
Tudo começou quando completei dezesseis anos. Minhas amizades de infância foram, paulatinamente, se desfazendo, até que outro tipo de amizade preencheu a lacuna social da minha vida. Dentro desse novo mover social, veio o ateísmo. Até então, eu carregava no coração apenas um protótipo de rebelião contra Deus, causado pelo ódio da contradição entre o que eu ouvia nas igrejas e o que via acontecer de fato. Era muito estranho caminhar pelas ruas e perceber que, justamente nas comunidades carentes, havia uma igreja do lado da outra, às vezes uma igreja em cima da outra.
Desde criança, eu ouvia a falsa teologia da prosperidade, contrabandeada dos mercados da fé norte-americanos diretamente para a mesa precária do brasileiro. Conceitos do tipo “ofereça o seu melhor para Deus (cifrão), e Ele te recompensará com o melhor” eram comuns nos cultos, e um mar de necessitados entregava até o que não tinha na esperança de prosperar financeiramente de forma milagrosa. Esse tipo de apelo falso e sofista ainda hoje enche fogueiras santas e gazofilácios mercantis.
Eu era adolescente, mas a contradição era nítida, até para uma criança: igrejas dissidentes se multiplicavam nas comunidades, pastores enriqueciam e membros continuavam pobres, mesmo entregando tudo na esperança de que a barganha divina ensinada nos púlpitos se concretizasse em suas vidas. Isso gerou ódio no meu então jovem coração; entreguei-me ao neo-ateísmo.
Nessa época, entre 2008 e 2010, havia uma explosão de conteúdo neo-ateísta na internet. Foi através da chamada inclusão digital que conheci homens como Neil deGrasse Tyson, Carl Sagan, Stephen Hawking e Richard Dawkins. Persuadido pelos vloggers — produtores de conteúdo que mais tarde seriam chamados de influencers — neo-ateístas, comecei a ler Deus, um Delírio, de Richard Dawkins. Esse livro mudou a minha vida, mas não da maneira que eu esperava.
Quando o adquiri, fiz isso para me municiar de argumentos contra a religião e tudo o que ela representava. Mas logo no prefácio li uma frase em letras maiúsculas que mudaria drasticamente o meu hábito intelectual: NÃO SE PODE CRITICAR A RELIGIÃO SEM UMA ANÁLISE DETALHADA DE LIVROS ERUDITOS DE TEOLOGIA. Meu raciocínio lógico me levou a pausar a leitura de Dawkins e comprar a minha primeira Bíblia.
Então, finalmente, ali estava eu: num quarto escuro, sentado em uma cadeira de praia, com uma luminária de mesa clareando os primeiros capítulos de Gênesis. Não havia pastor, professor, profeta ou qualquer outro intermediário. Havia apenas eu, a Palavra de Deus e o Espírito Santo. Sem entrar em muitos detalhes, posso dizer que me apaixonei por aquela Palavra. Ali, passei a crer verdadeiramente que há um Deus que criou os céus e a terra, que ama e que quer salvar pecadores desprezíveis como eu. Nunca mais retornei à leitura de Dawkins. Encontrei, de fato, o sentido da vida na Palavra de Deus. Sigo firme para o alvo.
